terça-feira, 24 de agosto de 2010

Versos


"- Como esquece? Você deve ter sofrido muito.
- Claro, é normal, não é? As coisas dele ali, todos os dias, sem ele. A cama vazia. Uma falta, eu sentia uma falta. - Sorriu para si mesmo. - Dor, dor, dor. Lembrei duns versos do Ferreira Gullar, o Beto gostava do Ferreira Gullar. Uns versos assim:
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

Pérsio sorriu de volta.
- Pois lembrei de outros. Do Ferreira Gullar, também. Há Ferreira Gullar para todas as ocasiões, eu sempre gostei. Presta atenção neste. - E recitou, devagar:
Amigos morrem,
as ruas morrem,
as casas morrem.
Os homens se amparam em retratos.
Ou no coração dos outros homens."

- Versos, versos, versos. Acho que somos a última geração que sabe versos.

Caio Fernando Abreu

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